Terça-feira, Novembro 10, 2009

É por isto que não consigo livrar-me do Pedro Paixão

Ofereci três livros dele, agora comprei oito, numa compilação intitulada "Do Mal o Menos". Começa assim:

"
A minha vida

Quase gosto da vida que tenho. Não foi fácil habituar-me a mim. Tive de me desfazer das coisas mais preciosas, entre elas de ti. Sim meu amor, tive que escolher um caminho mais fácil. O dinheiro também tem a sua poesia. E tenho tido sorte.

Deixei para trás a obrigação de mudar o mundo. Corrompi e fui corrompido. Ainda sinto dificuldades em mentir, mas também aqui vejo melhoras. Trata-se só de deformar ligeiramente o que vai acontecendo, não de inventar tudo de novo. Tenho mais alguns anos diante de mim e depois quero acabar de repente. Não sei se valeu a pena mas também não me pergunto se valeu a pena. Há coisas assim.

Não é desistir, e só não dar demasiada importância a coisas que não a têm. Esta vida é uma delas. Ganha em valor quando deixamos de a encarar como o centro do mundo. É só por acaso que gostamos das flores e do mar. Claro que é um bom acaso. Mas mais do que isso não.

Quase gosto da vida que tenho. Quando a quis toda não gostava de mim. Agora há dias em que aceito que o tempo passe por mim e me leve para onde só ele sabe. Não entendo como nunca houve uma religião que adorasse o tempo. Será possível imaginar algo de mais elementar e poderoso? Que com ele não se possa falar não me parece um defeito. Há coisas das quais, de qualquer modo, não se pode falar.

Vivo sozinho. Passam pessoas, mas nunca ficam por muito tempo. A partir de certa altura intrometem-se tédios por entre frases e não sabemos continuar. Não insisto. Há muitas pessoas. Não vale ter medo. Há muito que o amor mostrou ser um fracasso. No dia seguinte no escritório, esperam-me problemas por resolver e decisões que valem dinheiro. Não posso sofrer.
Claro que por vezes me sinto triste como toda a gente. Mas é uma tristeza doce, um descanso. E como não espero nada, não faço nada. De uma maneira ou de outra também esta noite acabarei por adormecer.

Tenho um filho que cresce longe de mim e que ainda não sabe quem sou. Quis que fosse assim e não me arrependo. Não me julgo um bom exemplo. Tenho um seguro de vida por morte violenta em seu favor que me poupa uma inquietação e lhe lega uma fortuna. Do resto não sou responsável. A biologia é uma ciência quase exacta e a natureza tem a inteligência das pedras.
Estudei durante muitos anos sem qualquer interesse prático. Os livros pareciam-me mais interessantes do que qualquer viagem. Escolhia-os ao acaso. Mas o que se fica a saber não nos torna mais lúcidos. Agora quase preferia não os ter lido. O saber transforma as coisas em nada, ou, pelo menos, arruma-as numa gaveta escura e triste da memória, que é sempre uma deusa nostálgica.

Durante algum tempo tentei distrair-me. Cometi crimes contra a moral. Abusei do meu corpo sem qualquer respeito. Não fui feliz nem fiquei satisfeito. As mulheres de quem gostei não queriam de mim o que eu queria delas e há mal-entendidos que não convém alimentar. Foi assim que fiquei sozinho. A sério que tentei. Talvez da maneira errada. Agora, mesmo que quisesse recomeçar não tinha tempo. O tempo não mostra qualquer compaixão. E houve alegrias que bastassem. É justo assim.

Quase gosto da vida que tenho. Sou conhecido nalguns restaurantes, o que não significa que me sirvam melhor, mas é sempre bom ser reconhecido. Raramente saio à noite, mas quando o faço acabo sempre por encontrar alguém que ainda se lembra de mim e quando volto a casa tenho comprimidos que fazem dormir. Por vezes durmo com uma rapariga e faço o que se deve fazer e o prazer vem e passa como um alivio. Não espero encontrar ninguém, a minha melancolia é-me suficientemente querida. Nem tenho saudades de pessoas, só de sítios e de coisas. Em particular há um frigorifico que guardo zelosamente na memória. Ainda subsiste algures porque a matéria é a única coisa que resiste.

De que gosto? De literatura, whisky irlandês e de adormecer logo. O trabalho é um rentável entretém que me ocupa as horas mortas. Vejo os filmes em casa, de todas as séries. Incomodam-me os barulhos das pessoas sentadas ao meu lado e gosto de rever as cenas mais macabras. Por isso vivo sozinho. Quando preciso, conheço uma massagista negra silenciosa como a noite. E de Inverno nado. A minha mulher a dias vem todos os dias quer esteja ou não constipado. Se fosse mais bonita e menos surda casava com ela sem qualquer preconceito. Já julguei ser um génio. Agora acho-me um mero mortal desencontrado. Vivo, é já o bastante. Não vou a nenhum lado, mas isso já tu sabias.

Sim meu amor, é esta a vida que levo. E raramente penso em ti como agora. Não te arrependas de nada. Por hoje já bebi o bastante. À tua saúde.
"
Pedro Paixão


Talvez isto responda melhor ao mail que recebi. Mas não te ia fazer um copy/paste.

Eu gosto desta escrita. Acho que o Pedro escreve para as massas como se estivesse a falar para cada leitor individualmente. Ora digam lá que não está um pouco de vós neste texto.

A parte boa de se pensar de mais é que se pensam coisas destas

A felicidade morreu quando passou a ser um culto.

Depois falta desenvolver. Aí quase somos atropelados na passadeira e já só ficou a frase. A ideia por detrás dela que pensem os outros que também pensei para a inventar.

Hoje apaguei um post. Por uma normalização. Tenho de fazer um esforço. A minha atenção tem que estar virada para o seguinte: se de cada vez que me sinto alegre não escrevo, também não o tenho de fazer nos momentos maus.

Estabilidade emocional. Por favor. Está na altura de contar um segredo: se conto que penso na morte é na esperança de o ler depois e me sentir envergonhado, e desta maneira talvez consiga deixar de o pensar. Hoje já pensei menos tempo nisso. Por enquanto.

Black - Pearl Jam

Segunda-feira, Novembro 09, 2009

...
E depois chego à conclusão que não devia fazer isto: invocar-te, falar contigo, porque tudo devia ser recíproco (até o ódio?), porque embora não me desejes mal nenhum deste mundo e possas eventualmente lembrar-te de mim uma vez por outra e sentir uma ligeira saudade, e me olhes então no espelho retrovisor da tua memória com ternura, queres que eu me foda. E eu não quero que tu te fodas. Não conseguiria querer tal coisa, mesmo que tal fosse necessário à minha sobrevivência.

Já nem é amor isto que tenho por ti. Mais uma desastrada tirada romântica que alimentei só para não me consumir na solidão que ficou do que já fui junto a ti. Contradições. Umas vezes obrigado por tudo o que me deste outra onde estás tu agora quando preciso urgentemente do mais simples gesto de afecto. Nada. Quanto mais esfomeado, menos esmola me dão. Passa-se dos banquetes e festins fartos para os passeios de calçada frios e sujos num ápice, ainda que gradualmente. E sou um homem só e incompleto, como se calhar naquele tempo era. Mas agora não disfarço isso. Até faço questão de o mostrar ao mundo, só para ele não me ouvir e eu me sentir ainda pior, mais só e triste. Tenho nojo de mim, se queres que te diga. Por ser humano. Por me deixar corromper por pensamentos feios em relação a ti, a mim, a toda a gente. A figura ridícula que faço é só ridícula. Não interessa porquê, se é justificada ou não. Sempre soube que a vida era injusta. Este cliché não me escapa. E agora calo-me porque sou perigoso a pensar, e só sei escrever dentro da minha cabeça.

Motivação

Perdi na carta. Outra vez. Desta vez no código. Cinco erros. Não estou triste e desanimado por ter perdido, acho que perdi por andar triste e desanimado. Mal reagi ao ouvir o resultado. Que se foda, foi mais ou menos isto que pensei. Agora apetece-me ir para casa enfiar-me na minha cama, numa posição semelhante à do bebé na barriga da mãe, ocupar-me a ser miserável. Já tenho motivo. Mas agora tenho de trabalhar. Mais logo dá o Benfica. Depois há o futebol virtual na consola e o consolo possível dos amigos. E sou miserável só por dentro. Por hoje.

Voltei a pensar em suicídio.

Domingo, Novembro 08, 2009

Ressacas ao alto. Ela está no meio de nós

Era domingo.
Acordei com a aguda necessidade
De receber a extrema-unção
Da benzedura
Queria-me levantar
E ir à missa
Mas houvesse água benta
Para pôr na fervura
Do meu fígado.
Ardia-me o estômago
Na fogueira da azia
A cabeça explodiu
A latejar e só me dizia
Ai meu Deus, que pecado,
Os litros que emborquei.
Levantei-me a custo
E com uma hóstia
Gurosan comunguei
Agora só me falta
O sagrado cálice
Da chávena de café
E fico ok.
Ámen

Sábado, Novembro 07, 2009

O (meu) Segredo

Desenvolvi uma técnica daquelas de pensamento mais dirreccionamento de energias mais misticismo igual a acontecimento externo influenciado por forças invisíveis internas, tipo O Segredo, que funciona. Então é o seguinte: refilar, choramingar, fazer queixinhas da má sorte que se tem. Quem não chora não mama, já diziam os antigos, e ao que parece resulta. As sapatilhas apareceram. A orelha continua inchada, mas já não dói, porque o médico do andebol me fez o favor de passar um antibiótico e um analgésico. O dinheiro já entrou na conta. Escrevi um post do estilo queixinhas às duas da tarde, mais coisa menos coisa, e os sapatos apareceram às seis, o médico passou-me a receita às seis e dez, e vi que o saldo estava composto eram umas seis e meia. Assim, pumba. Uma acção conjunta do universo e de Deus para me calar a boca e me fazer sentir um menino mimado que faz birra sem ter razão, só para me envergonhar da minha criancice. Pelo sim pelo não, vou continuar a fazer beicinho e a auto-comiserar-me de cada vez que as coisas me estejam a chatear ou que se comecem a desviar por um caminho que não o da minha vontade.

Sexta-feira, Novembro 06, 2009

Faltei ao trabalho. Faltei à última aula de código antes do exame. Era para ir ao médico a ver se me tiravam ou reduziam o inchaço na orelha. E comprar um par de sapatilhas. Não recebi ainda. Sem dinheiro não posso fazer nem um nem outra. Foda-se! Fiquei em casa a ser miserável e a sentir os efeitos secundários da medicação usada em epiléticos. Chorei e pensei em suicídio. Continuo sem sapatos e com uma orelha do tamanho de um repolho. Há dias que pura e simplesmente deviam ser erradicados da vida das pessoas. Não me importava de ter 5 anos por agora.

Quinta-feira, Novembro 05, 2009

Conselhos do mestre Zen

Nunca traves uma batalha entre o lado emocional e o racional. Dá sempre empate, e quem perde és tu.

Português pouco suave II

Continuando no Eurico (aquele livro tem dezenas de palavras "estranhas"), chegamos ao estrépito.

estrépito
s. m.
1. Ruído produzido no solo por o que vai passando; tropel; som estrondoso.
2. Fig. Pompa, solenidade, ostentação.

Diário telegráfico

O dia começou cedinho, com o sol a raiar. Fui ao funeral do pai do Professor. Foi a primeira vez que fui a um sem saber sequer o nome do finado. Não consegui evitar algumas lágrimas ao ver o pranto do meu amigo. Ver um coração bom chorar parte-me o coração.

Não é um quisto o que tenho atrás da orelha esquerda. É uma bola de golfe que me empurra a orelha para fora e doi que se farta, ao ponto de não poder dormir com a cabeça para o meu lado favorito.

Afinal tenho um síndrome (tomem esta, cépticos da minha doença), o amotivacional, mas vá lá que a senhora doutora não vislumbrou mais nenhuma maleita de repercussões mais graves. Receitou-me um estabilizador de humor e daqui por mês e meio começo a notar alguma diferença, segundo ela. À parte disto, poupei-lhe imenso trabalho, pois após a minha introdução ela disse-me: mas já me fez o diagnóstico. Uau. 65 euros para sair dali confuso na mesma.

Quarta-feira, Novembro 04, 2009

Português pouco suave I

Durante as minhas passagens de olhos pelos textos das internetes e dos livros, encontro palavras que só posso fazer uma mínima ideia do que significam pelo contexto em que estão empregues, por derivação ou por puro acto de bruxaria e adivinhação. Por isso, e para dar um toque de serviço público e um ar cultural aqui ao tasco, decidi inaugurar esta rúbrica com a preciosa colaboração do Priberam. A palavra desta edição é "frontispício", encontrada em "Eurico, o Presbítero", de Alexandro Herculano.

frontispício
s. m.
1. Frontaria principal.
2. Primeira página do livro (a que tem o título).
3. Parte anterior do pórtico.
4. Fig. Cara.

Hoje é o dia da senhora doutora

do juízo. Como podem imaginar, ando a ensaiar o discurso desde que soube que ia ter consulta. Acho que só vou-me lembrar da primeira parte, que reza assim: quase toda a gente diz que penso demais. O resto há-de vir em efeito bola de neve, e há-de ser o que for. Se houver baixa, melhor. Gostava de levar a leveza do Juvenal para o consultório.

"Estive a pensar na melhor maneira de acabar com a vida. Vou sentá-la na mesa da cozinha e dizer-lhe que conheci outra pessoa. "
in sobpressaonaoconsigo.blogspot.com

Inércia em movimento

É sobretudo o tédio que
me move. Como a água
Que sobe aos céus para
Cair novamente quando chove
A larva que apodrece a maçã
ao se alimentar, alimentará
a raiz da macieira ao decompor-se
Em adubo lentamente, no jardim
mais bonito que há na terra,
porque passarei indiferente,
porque para mim nessa altura
os jardins serão todos iguais
Nem as canções das flores
Nem o bailado dos melros
Nem mesmo os namorados
Sentados nos bancos
A curtir mil amores
Me despertarão as glândulas emocionais
Porque estou com pressa
Atrasado para o trabalho
Ou para ir a lado nenhum
Fazer algum nada menos
Que as vistas e os cheiros
E os sons desse jardim
A vida pede que me mova
E não me comova. E eu movo-me.
Movo-me assim, em
Pérpetuo movimento de inércia
(porque...)

este final entre parêntesis só deve ser lido para pegar de novo com o primeiro verso.