Quinta-feira, Dezembro 24, 2009

Carta de natal da minha mãe

É véspera de Natal!
Todos andam numa correria a preparar o jantar da consoada. É uma azáfama, as corridas para as últimas compras, mas aqui no aconchego do meu lar, bafejado pelos meus filhos, relembro os nossos preparativos para a chegada dos presentes trazidos pelos Pai Natal, deixados em cima do fogão dos meus pais. Longe vai o tempo em que tu, Filipe, a Sandra, a Diana, a Márcia, a Sílvia, o Tiago e o Júlio desciam a canada ao anoitecer para deixar o sapatinho à espera dos presentes em casa do tio Satiro. Engraçado que eras tu quem tinha sempre a ideia de levar uma bota de cano alto, para que na manhã seguinte te levantasses cedo e corresses ao encontro da bota cheia. Eras um felizardo Filipe, o Pai Natal sempre te surpreendeu. Naquele tempo a magia do Natal, mesmo que no nosso imaginário, era diferente. Hoje não passa duma simples noite em que se escolhe as melhores iguarias para o jantar, onde na maioria dos casos, se junta a família. Que pena tudo passar tão depressa, deixar de se acreditar no Pai Natal, deixar de se acreditar na vida.
Esperançada que passes o Natal connosco Filipe, assim te deixamos.

Até sempre,
Martinha Melo

Quarta-feira, Dezembro 23, 2009

Pessoa é toda a gente

"(...)
Queria ser uma pedra, não aspiro a mais, quero
Ser uma coisa que não possa ter vergonha nem desespero,
(...)
"
Álvaro de Campos

Let it snow

Estou de volta ao mesmo lugar. O tempo não passa. Talvez fosse boa ideia ocupar-me. Com outras coisas. Aquelas que não apetece fazer. Porque entedia. Porque não fascina. Porque está cinzento no céu de lá de fora. E reflete o meu cá de dentro. E isto tudo é um disparate de dimensões microscópicas que só de quando a quando se deixa revelar, com consequências hiperbolizadas.

Devia deitar este texto ao lixo, mas até os dias que são deitados ao caixote contam numa biografia.

Menino Jesus

Um abraço Filipe

Pois é, o Natal. Fui recrutado e incumbido da missão de relatar a minha melhor experiência natalícia, penso que foi esta a expressão, para sair num suplemento especial de Natal, adiantaram. Antes de mais, sinto-me lisonjeado com o convite, ao que respondo de bom grado.

A mim parece-me que as histórias de Natal, bem como toda a quadra, ameaçam tornar-se natalescas – ao estilo carnavalesco – em vez de natalícias. Da minha infância lembro-me do enfeitar a árvore, de apanhar o musgo para o presépio com os meus irmãos e vizinhos, memórias doces desta época que se sentia ser mágica. Nós é que éramos mágicos nessa altura e agora somo-lo menos. Muito menos.

Eu sou duma geração que sempre viu piscas-piscas, anúncios da Coca-Cola com o Pai Natal e o seu camião cheio de prendas, circo na televisão no dia de Natal, e pedidos de carros telecomandados à distância correspondidos com meias da avó, cuecas da tia, e amor da mãe. Pelo menos comigo foi assim. Claro que ela – a minha mãe – me dá sempre um pijama ou um par de chinelos, mas a melhor prenda desembrulho-a todos os dias, quando lhe dou um beijinho logo pela manhã. E este ano tenho-me portado mal.

O que eu reparo é que o Natal é só em Dezembro. Os homens já não o querem mais vezes no ano. Dei um par de sapatilhas para a Cáritas. E foi em Dezembro. Foi o melhor que fiz neste Natal. Eu disse que não me tenho portado assim tão bem; não tanto quanto desejava. Dos natais mais felizes alegro-me sobretudo de não me lembrar. Quando nasci de certeza que para a minha mãe fui um Menino Jesus. Esse foi o meu melhor Natal.

(sai na União um dia destes. Eles que me perdoem o pô-lo aqui antes, mas também não é por causa disso que vão comprar / deixar de comprar o jornal.)

Terça-feira, Dezembro 22, 2009

O guardador de rebanhos

VIII

Num meio dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia
Vi Jesus Cristo descer à terra,
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu,
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras,
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas -
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.

Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!
(...)

Alberto Caeiro

Segunda-feira, Dezembro 21, 2009

Jesus é o Senhor



Aweiiiiiiiiiuuuuuuuu!!

Vai buscar. Toma car*lhos!

Domingo, Dezembro 20, 2009

Podes dar-te ao trabalho de sonhar comigo?

(han? gande título)

mas este post é sobre um bocadinho de uma letra duma música

"
Babe
Oh, dream about me
Lie... on the phone to me
Tell me no truth
If it is bad
There's enough in my life
To make me so sad
"

Moby - Dream About Me

O homem que precisava de escrever

Naquele tempo ele só precisava escrever. Não o quê, nem porquê; simples processo mecânico de montar palavra após palavra. Durante uns minutos escrevia. Enquanto durava a queimar um cigarro fazia dois ou três parágrafos (à vontade) de gatafunhos. Sabia já que quando parasse e lesse o que acabava de escrever, se sentiria imbecil, mas não importava. Então parava.
Bloqueava. Aquilo fazia-lhe mal. Não havia arte, não havia engenho, não haviam histórias, talento sequer no puto maravilha, o poeta da malta. De resto, só ele se parecia importar com isso. Ela tinha razão quando o tinha acusado de egocêntrico. Só conseguia escrever sobre si, e era chato, assim como a sua vida.
Escrevia à noite para se entreter, quando não dava para tirar aquilo do peito, as convulsões litarárias que as vozes dentro da sua cabeça atiçavam. Claro que era lixo o que ele fazia. Mas impedia-o de tomar mais medicamentos, e assim conseguia adormecer mais rápido, depois de ter escrito alguma coisa. Um miúdo tão novo não devia tomar comprimidos dessa maneira, diziam-lhe. E para ele era parvoíce , e as pessoas eram umas tolas.
Claro que queimou tudo o que escreveu.

Sábado, Dezembro 19, 2009

Ó meu amor, deixa o titi ligar o computador

Ao passar pelo quarto da minha mãe, parei a observar o embalo que ela dava à Luana, que é a minha sobrinha. Tem dois anos e é uma alegria enorme na minha vida - na casa, pronto. É uma criança hiperactiva, arrisco. Todos os miúdos de dois anos devem sê-lo... Cansa só de olhar. Não se cala, pula, revira, dança, corre.
A avó cantava à neta: "dorme bebé, dorme bebé, dorme Luana..."
- É assim que a fazes adormecer?
- É. Mas ela não pára quieta. É muito difícil fazê-la adormecer.
- Deixa-me tentar.
O Canal Panda não resultou. Nem o paninho do sono. Nem a mêmê (chupeta). Experimentei cantar também baixinho e embalá-la.
- Such a pretty garden, such a pretty house, with no alarms and no surprises, please.

Moral da história: se as canções infantis com vozes femininas não resultam não vai ser um desafinado e improvisado Thom Yorke que vai resolver.

Querido Menino Jesus

Eu sei que tu existes porque já vi a minha mãe falar contigo com toda a devoção e embrulhada em lágrimas e tu respondeste-lhe. Não da maneira que ela queria, mas deste-lhe uma achega. Eu não deixei de beber e andar triste, por exemplo, mas retribuí algum do amor que ela me dá. Não quero uma Playstation. Nem dinheiro nem felicidade nem essas coisas de paz no mundo e entre os homens. Quero que me tires este peso do peito sem comprimidos. A vontade de chorar sem mais comprimidos e mais consultas na doutora. Quero que os meus amigos sejam amigos, de mim e uns dos outros. Quero um lar em vez duma casa. Quero parar de sofrer e de pensar em morte. E já agora a carta de condução. Quero sair de casa e não ter de passar fome. Apaixonar-me. Mas antes gostar de mim. Se não for pedir muito. Não estou a falar com o resto desta gente que anda por aí. Isto é só entre nós: eu e tu - menino velhadas de dois mil e tal anos. Temos isso em comum, sacana: não crescemos mesmo.

Hurray!

Com pesadelos, mas voltei a dormir como as pessoas normais.

Sexta-feira, Dezembro 18, 2009

Olha conversas de msn no blog. Em terapia vale tudo

I say:
por isso msm ha mts conhecidos e amigos poucos

I say:
as gajas que eu conheço quando têm gajo, sucesso a nivel profissional, seja o que for

I say:
quando tao felizes

I say:
cagam pós infelizes

I say:
e é por isso que os homens vao ser sempre mais amigos uns dos outros

I say:
pq quando um sofre, sofremos todos

Quetiapina

Dois dos outros se calhar não são suficientes. Fui novamente chamado e medicado. Mais dois, já perfazem quatro. Com o da asma, são cinco - repito - cinco comprimidos ao jantar. Depois é ler uma página e dormir que nem um bebé. Acordar é que são elas... Ansiedade: igual. Drogas: para quê, se os comprimidos me deixam tonto de tal maneira que vou apoiado nas paredes do corredor até à casa de banho? Uma cervejinha ou um copo de vinho? Deixam-me a chorar que nem um perdido e a pedir ganza como um vampiro pede sangue. É um esforço que tens de fazer, dizem-me. É pela tua saúde, dizem-me. Pela minha saúde tranco-me num quarto à espera da hora dos comprimidos. Sozinho. Triste. Ansioso. Ai a vida é tão bela quando aos 20 e poucos parece que nunca mais acaba.

O humano é mesquinho. Uma pessoa está a pensar na sua desgraça, de aos 20 e poucos andar nos comprimidos, não poder beber, fumar, ser drogado e pseudo-escritor: um desgraçado. Está um gajo a curtir a sua depressão e aparece um pretinho de barriga inchada a morrer de fome lá nas Áfricas na televisão. Cai-me uma lágrima, não consigo evitar. Como estou bem em relação àquela gente, penso, e a seguir culpo-me por me queixar da minha condição, isto ao mesmo tempo que me dou por contente por ter um tecto e uma refeição. Mas devia estar contente por ter uma vida melhor do que a do pretinho - embora me sinta mal - ou triste por me sentir mal tendo uma vida melhor do que a do pretinho? Logo a seguir basta pensar nas raparigas/mulheres com quem já estive envolvido e todas elas já arranjaram alguém, e estão felizes, e sinto-me inferior, isto para não falar da mesquinhez do prazer doentio que teria se alguma delas estivesse tão ou mais infeliz que eu.

e isto deixa-me triste. mas a doutora diz que estou doente. tenho que me "dar um desconto". Tenho mais dois livros do Kafka, o resto... o resto é o resto e que se foda. Vou-me curar primeiro.